Aquilo ali

As portas do meu guarda-roupas são de vidro espelhado, fornecem um reflexo meio amarelado. Eu estou deitado na cama em frente a elas. Todas as luzes estão apagadas, só consigo dormir assim. Às vezes deixo a persiana da janela só um tanto aberta, mas é verão e há muitas moscas lá fora.

Eu sinto aquilo que se sente e te faz olhar em direção contrária a qual se está olhando no momento, dando de encontro com o olhar de um alguém te observando. Da mesma forma que esse texto só se é por que você o lê agora, o que quer que possa estar ali do lado do guarda-roupas precisa do meu respaldo para existir. E eu não sei bem se quero dar-lhe.

A porta está trancada e o apartamento é seguro, então o que quer que esteja ali, material não é. Acender a luz e o enxergar acabaria tanto com meu ceticismo quanto com qualquer crença que eu possa vir a ter que não se encaixe com o ser que ali está a observar. Eu não duvidaria da minha sanidade, agora.

E se ao escolher olhar e acabar por vê-lo, o que seria da minha vida em diante carregando tamanha certeza? Eu não conseguiria pensar em outra coisa enquanto tosto minhas torradas de manhã.

E se esse o-que-é-que-possa-ser estiver me oferecendo uma oportunidade que, caso recusada com minha escolha de não olhar, jamais voltará a ser ofertada?

Já está tarde e preciso dormir. Acendo a luz. A única coisa que vejo é o meu reflexo amarelado no guarda-roupas. Isso não me alivia tanto assim, mas ao menos agora posso dormir.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: