Volta

Ela estava pronta pra deixa-lo. Pensou em ir pro Rio, pra Paris e até mesmo Marte. Carregava pouco em sua mala, e tinha dinheiro suficiente para dar duas voltas na terra, num assento econômico. Ele não tinha feito nada de errado, mas também nada de tão certo.
Eu vou embora – Disse ela, cinco dias antes. Ele conhecia a verdade quando a via refletida naqueles grandes olhos castanhos. Creditando o presságio como inevitável, olhou para baixo, piscou os olhos, encarou-a – Eu sei.
e Ela,  agora, também sabia.
São cinco da manhã, a luz da varanda está acesa, e lá ela fuma um cigarro. Costumava fechar as portas de vidro pro cheiro não invadir o apartamento, mas dessa vez não fez questão. Ventava frio, e o fim de madrugada azulava acinzentado o céu. Arrastou a cadeira em que sentara pouco antes, levou a xícara de café a pia, olhou para o quarto e ele estava deitado, de lado, coberto por um lençol e sem camisa. Pegou sua mala de couro desgastada, que agradecia o pouco que Ela levava, fechou a porta e desceu os seis andares de escada. O táxi esperava lá embaixo.
São quatro e meia da manhã. Ela nem chegou a se deitar essa noite. Ele acorda com o barulho das louças na cozinha. Cheiro de café. Do quarto consegue vê-la, fecha os olhos quase que por completos, naquele limite em que os cílios sombreiam a visão. O vento que vem da varanda o esfria, ele sobe um pouco o lençol, mas não busca outra coberta. Cheiro de cigarro.
Ela fecha a porta e ele se senta na cama.
Pro aeroporto – Só diz isso ao taxista. Pro aeroporto – Ele pensa, indo para a cozinha esquentar o café, já um tanto frio. Ela vai embora, os dois sabem disso. Ele pensa em ir atrás, ela quer que ele venha. E ela vai embora mesmo assim, e os dois sabem disso. Ele quer ir atrás para depois não se permitir pensar “E se?”. Ela quer que ele venha para ver um fragmento do homem que ela não abandonaria. Seria um ponto final simbólico, ela já foi embora há tempos, mas ali poderia voltar, por uns instantes. E ele poderia ser quem queria ter sido, por uns instantes. E o fim seria belo, e aquela memória, bonita.
Ele bebe o café na varanda, e ela olha dos céus os prédios perderem o contorno.

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