O que a natureza e a história nos dizem sobre intolerância

Biologicamente, o quão diferente são um negro, um branco e um asiático? Quase nada. Só a epiderme e alguns anexos faciais que destoam. Nós, humanos, somos notavelmente parecidos entre si: se a pele ou os olhos destoam, temos sentimentos, tendências e potenciais básicos quase homogêneos. Não deveria, em tese, ser tão difícil praticar a tolerância.*

Apesar disto ser quase autoevidente, há na história humana uma infeliz constância de um grupo dominante excluir e perseguir outro periférico, pelos mais fúteis e insignificantes motivos. Da antiguidade com Genghis Kahn ao mundo pós guerra fria com o massacre de Ruanda, continuamos a repetir tais atos de genocídio e segregação. Além de claramente imoral, podemos perceber algumas constantes interessantes quando analisamos mais profundamente alguns casos de perseguição ao longo da história. Observando com diligência, a história e a natureza parecem passam uma mensagem.
Um exemplo interessante sobre isso é a Alemanha Nazista. Hitler, junto com grande parte da sociedade alemã, era, como você deve saber, profundamente antissemita. Odiava judeus. Odiava tanto ao ponto de fazer câmaras de gás com cianeto e colocá-los lá dentro. Visando espalhar sua filosofia de amor alternativa pela Europa, partiu em uma campanha expansionista por ela. Era a Segunda Guerra Mundial.

No final, a Alemanha perdeu e Hitler se matou. Mas, vamos fazer um trabalho de imaginação: como a Alemanha poderia ter ganhado a guerra? Um jeito bem simples seria desenvolver, antes de qualquer país aliado, a bomba atômica e atacá-la nos russos ou nos britânicos (ou em ambos!). A destruição com certeza assustaria os americanos pra caralho e forçaria um ”tratado de paz”, preservando as áreas já anexadas para a Alemanha. Para isso, seria interessantíssimo possuir cientistas geniais e dedicados à pesquisa de física nuclear e quântica. Tipo dois ganhadores do Nobel: Albert Einstein e Max Born. Que eram judeus. E saíram do país fugindo do regime opressor.

Não só isso: foi Albert Einstein, professor da Universidade Americana de Princeton, em célebre carta ao presidente Roosevelt, que recomendou a iniciativa do Projeto Manhattan, cujo desenvolvimento levou à… Bomba atômica. Neste projeto, o lider era o físico Robert Oppenheimer que, bom, foi doutorando de Max Born na Inglaterra. [1] Ou seja, trocando miúdos, excluir todos os judeus acabou por levar à derrota na guerra (há!)

Outra ilustração disto ocorreu do outro lado da guerra, com um dos aliados, já no contexto da guerra fria: A URSS, país com economia planificada e estado gigantesco, sempre perseguiu algumas etnias, principalmente judeus, tártaros e armênios. Apesar de não declarado, havia um preconceito institucionalizado contra esses grupos, algo que os impedia de adentrar nas melhores faculdades e, assim, desenvolver o lado intelectual de maneira plena. O maior exemplo desta ação era o processo de seleção da Universidade Estadual de Moscou, possuídora do melhor curso de Matemática de toda a União Soviética: nenhum judeu entrava lá e, inclusive, era recomendado que nem fizessem a prova. Os excluídos interessados na ciência exata eram mandados para o menos prestigioso ”Instituto de Petróleo e Gás”, apelidado de ”Keroshinka”. [2]

Criou-se um paradoxo interessante: o curso de Matemática do Instituto, teoricamente mais fraco, passou a ser frequentado por alunos judeus com nível para estar na UEM e, pois, tornou-se referência em matemática aplicada. No entanto, sapientes que o terreno da pós-graduação era ainda mais ríspidos para os judeus, muitos dos alunos geniais acabaram… Saindo da URSS. Exemplos de ”cérebros fugidos” são os matemáticos Edward Frenkel* e Pasha Etingof, que lecionam, respectivamente, em Berkeley e no MIT, prestigiadas universidades americanas. Ambos desenvolveram modelos matemáticos aplicáveis na física quântica e na economia, auxiliando o desenvolvimento americano. A URSS, com dificuldades de logística, planejamento e produção, áreas muito beneficiadas pela matemática aplicada, acabou por desaparecer.

A conclusão possível de se retirar da história destas duas sociedades tão diferentes em contextos históricos e políticos, porém parecidíssimas em conduta para com minorias e desfecho, é que a intolerância injustificada é autodestrutiva. É assim pois todo grupo de seres humanos independente da etnia, cultura, orientação sexual, língua ou gênero, concentra em si certo potencial intelectual, podendo presentear a sociedade com indivíduos geniais, que auxiliarão, com inovações técnicas e criatividade, o progresso da mesma. Como disse René Descartes, ”a razão é igual em todos os homens”. Portanto, aqueles que atacam um grupo estão minando colaboradores potenciais e, assim, destruindo a própria capacidade da nação alcançar inovações. Atacar outros é atacar a si mesmo.

Então, parece haver no cerne natural uma tendência a incapacitar aquelas civilizações segregarias e a beneficiar as inclusivas e tolerantes. É a biologia se projetando no mundo social: com os seres vivos, quanto mais diversificação genética, maior a chance de certa população apresentar inovações evolutivas e, assim, superar adversidades; no caso da sociedade, quanto mais misturados, tolerantes e heterogêneos somos, mais podemos superar e conseguir realizar ^-^
Não nos fechemos para estas belas e evidentes morais da natureza e da história. Podemos pagar caro se o fizermos.

* Ou não tanto assim. Seria o preconceito natural e, assim, ignorá-lo é o pior a se fazer? Who knows? https://www.youtube.com/watch?v=qip5YJw-f9c

**Fankel participa de um canal no youtube sobre Matemática (bem legal!): https://www.youtube.com/user/numberphile. Também é o autor de ”Amor e Matemática”, livro maravilhoso em que, além de muitos conceitos de matemática, expõe o preconceito que sofreu.

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