CRÍTICA DE MÚSICA: Radiohead – A Moon Shaped Pool

A Moon Shaped Pool é o mais recente álbum da banda Radiohead, lançado em 2016. Assim como seu predecessor, The King of Limbs (2011), sua estratégia de marketing foi peculiar, vaga e de lançamento bruscamente súbito (o nome do álbum foi revelado apenas no momento em que ele foi disponibilizado para compra). É difícil negar nestas palavras o quanto sou fã da banda e o quão avidamente esperava este lançamento, acompanhando as pistas que a banda deixava pela internet e as inúmeras especulações de quais músicas estariam no conjunto. Devo dizer que cinco anos de espera valeram a pena muito mais que qualquer expectativa que poderia ter sobre a obra.

O álbum abre com a música previamente lançada Burn The Witch, as cordas marcantes abrindo o som com ansiedade e empolgação. A entrada da voz de Thom Yorke, inconfundivelmente melódica como sempre, com a letra extremamente atual que diz sobre uma sociedade preconceituosa e extremista, já demarcam claramente que este é de fato o começo de um álbum do Radiohead, trazendo um tom que crescentemente passa da empolgação para um final desesperador e caótico. Também, como de praxe, a faixa seguinte é diferente em todos os sentidos da anterior, essa chamada Daydreaming, que, acompanhada com seu clipe dirigido por ninguém menos que Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Magnolia, The Master), denota uma trágica e melancólica poesia belíssima, marcada praticamente apenas pelo vocal agudo de Yorke e o piano que constantemente altera-se no fundo. Assim como todas as faixas do álbum, Daydreaming é aquele tipo de música que vale a pena ouvir inúmeras vezes, pois sempre haverá alguma minúcia que passou despercebida nas ouvidas anteriores. Mais uma vez, outro ponto importantíssimo da faixa é a presença implacável das cordas, hora distorcidas, hora puramente melódicas, arranjadas por Johnny Greenwood, também guitarrista da banda.

Ao longo das onze faixas, a mescla de estilos musicais parece mais forte do que nunca na composição da banda. Desert Island Disk é uma música digna de um verdadeiro road movie, levando influências de folk e forte presença de violão (instrumento que nunca esteve tão notável na banda desde The Bends, álbum de 1995). Full Stop toma as habilidades de todos os membros da banda e eleva-os ao máximo, criando uma das melhores faixas do álbum e resultando em uma progressão musical que só pode ser definida por “insanamente maravilhosa”. The Numbers começa com um piano que é distorcido por elementos eletrônicos e depois se torna um jazz com elementos de blues e cordas que fariam BB King parabenizar de pé, lembrando o acompanhamento de músicas como The Thrill is Gone e Hummingbird. Cada música é uma surpresa maravilhosa do começo ao fim, tanto entre suas faixas como dentro de suas próprias progressões (como Identikit, finalizada de forma que vale a pena até saber de surpresa, sendo provavelmente um dos momentos mais icônicos do álbum inteiro). Além dos estilos mencionados, as músicas também viajam ocasionalmente pelo samba e bossa nova e o trip-hop sempre perfeitamente trabalhado.

            Mesmo com todas as características geniais de A Moon Shaped Pool, o seu trunfo está em um mérito simples, mas importantíssimo: O álbum é o menos denso da banda em muito tempo, mantendo uma perfeição nunca atingida antes em sua história de vinte e três anos. Para os fãs, é uma adição incrível, surpreendente e dotada de personalidade sem igual. Para os novatos à banda, é uma entrada perfeita para a discografia, mostrando tudo que a banda sabe fazer em sua melhor forma e de maneira acessível a qualquer ouvinte de boa música, preparando-o para os outros álbuns fenomenais do grupo. Como palavra de fã, posso apenas dizer que A Moon Shaped Pool é um álbum cuja beleza e qualidade me surpreenderam a ponto de alegar, mesmo depois de perder conta de quantas vezes ouvi suas faixas, que é o melhor álbum da banda, um dos melhores da trajetória da música, e um marco histórico da década de 2010, mostrando tudo que se pode fazer quando se abandona qualquer tipo de convenção musical para criar algo revolucionário e sem comparação.

10/10

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