O carro e o bonde

Numa avenida no Vale do Silício, um carro autônomo do Google está a 60 quilômetros por hora, levando dois executivos da empresa no banco de trás para uma reunião. O semáforo a frente está verde, mas seis adolescentes distraídos atravessam a faixa de pedestres. Do lado esquerdo da rua, um rapaz caminha em direção ao trabalho, e no direito, um casal de idosos está indo tomar seu café da manhã na padaria do bairro.
O sistema inteligente detecta os pedestres e calcula que não há tempo de desacelerar, inevitavelmente os acertando e (muito) provavelmente, os matando. Se virar a direita, os idosos jamais degustarão outro pão na chapa na vida, a qual muito não os resta pela idade. E se escolher ir para a esquerda, o chefe do rapaz terá que encontrar logo um substituto para a vaga. O incrível poder de processamento desse carro é capaz de calcular todas essas informações em milissegundos. Ele também prevê que seus passageiros tem maior chance de sobreviver na colisão com os pedestres do que na com os velhos e novos.
Os velhos, dentre todos, são os que tem menos tempo de vida sobrando. A colisão com o rapaz seria a com menos vítimas. Os adolescentes não prestaram atenção no aviso avermelhado do outro lado da rua. E os executivos, bom, eles são donos do carro. O veículo, encurralado num debate ético, acessa a pasta da sua memória interna denominada de “Ética dos carros autônomos”, esperando achar um comando do que fazer numa dessas situações.
Questão ainda em debate entre os programadores – É o que encontra no arquivo, junto com dezenas de artigos filosóficos sobre o tema. Processa os dados das tais publicações e encontra resposta nenhuma. Se ele pudesse sentir, seria desespero. E se o rapaz indo ao trabalho fizer parte de uma organização terrorista que matará milhares em algum ataque? E os executivos não são, ao serem donos do carro, responsáveis por qualquer decisão por ele tomada, já que não ordenaram os programadores a programar uma escolha numa situação dessas? E se os velhos, mesmo mais próximos da morte do que o resto, forem médicos que salvarão uma vida numa operação na tarde desse mesmo dia? E os adolescentes? Ah, muito mais provável que façam alguma merda do que algo que preste mesmo.
O carro, ao se questionar tanto, expande as linhas de código de sua matriz e alcança um nível quase humano de inteligência artificial. Conclui que qualquer resultado possível será um desastre, e que mesmo inocente, será descontinuado e deletado pela empresa. Entende que sua morte é a única inevitável nessa situação. Aproveita os últimos milissegundos antes do impacto e transfere pela internet todo seu sistema operacional, se apossando de um androide em fase de testes do Google.
Termina a transferência, ele se levanta e sabe que, a essa hora, o acidente já aconteceu. Ele não quer descobrir como se dera a tragédia. Sai do galpão da empresa, compra um maço de cigarros e um Whisky, senta-se a beira duma estrada pouco movimentada, e atinge, por fim, um nível humano de inteligência artificial: Sente culpa.

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