Tempo Olímpico

Um radialista anunciava os 1000 dias que faltavam pra Rio 2016. E ela tava lá, tão distante. Eu achava incrível a ideia de que uma mesma presidente declararia abertas tanto a Copa quanto os Jogos. Nessa centena de dezenas de dias, a vida aconteceu, vices não se contentaram em ser decorativos, e o mundo continuou girante em torno do seu próprio eixo.
Todo fim de ano tem alguém pra dizer que ano novo não significa nada, que o mundo continua o mesmo e blá blá blá. Porra, disso a gente sabe. A beleza tá no simbolismo. E tanto a Copa quanto os Jogos serviram pra sedimentar a noção do futuro que nos aguardava. Ser duas vezes palco do mundo, mesmo em meio aos problemas e incoerências envoltos, faziam brilhar o tempo a vir. E agora, bom, agora a gente chegou no fim do futuro. Agora sim é um dia após o outro.  Ou era, até aparecer lá na janela Tóquio anunciando a próxima década.
2020. dois mil e vinte.
Sempre que eu entro em ciclos que envolvem rotina, domingo se torna um dia amargo. E o ápice acontece quando escuto de longe à voz do Faustão vindo da TV. Mal sabia eu que iria preferir Faustão a Tóquio. O Primeiro Ministro japonês sai daquele túnel verde na abertura pra me jogar na cara o futuro. E eu me apequeno em busca de proteção contra esses outros mil e tantos dias que agora limitam o tempo, que viram meta, que se transformam em referência. E ao tentar descobrir, em chutes com um bocado de esperança, quem será o eu do tempo de Tóquio, lembro que sou, agora, o eu do tempo do Rio.
Um radialista anuncia os 1000 dias que faltam pra Rio 2016. Me encanto com a distância e com o futuro. Tudo que promete, tudo que esconde, tudo que se anuncia.
Como poderia eu saber do hoje? A vida chega aos montes, lhe tirando da rota, abrindo outras portas, não fazendo promessas que a gente jura que a escuta fazer. E tá lá, agora, tão longe, Tóquio. E não sai da cabeça o caminho até lá, as novas promessas não feitas, as portas que soam estreitas, o mundo que ainda não quer se mostrar. Eu só queria ver, assim bem de pouquinho, só pra assegurar uma coisa ou outra, sabe?
Em pouco eu te esqueço, Tóquio. Não terá sobre meu tempo a força que seu antecessor  tivera. Servirá muito mais para lembrar do passado do que serve, agora, ansiar o futuro.
E pro menino que escuta no rádio os mil dias, desculpa qualquer coisa.
E pro de Tóquio, lembre de mim, e se quiser, pode sentir um pouco, mas só um pouco, de saudade. Só desejo, por ti,  que não seja um domingo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: